Retomando as atualizações do Blog, deixo um poema escrito nos dias que sucederam a morte de meu pai, não da data de sua morte, lembro do aniversário: 19 de Agosto de 2008.




sobre pães de mel


quando te reencontrei estavas deitado sobre a fria mesa
quieto, afastado, os músculos imobilizados, a face serena e ausente
não pude ver o teu sorriso curto e iluminado
o corpo inerte, endurecido e frio

as lembranças:
dos dias que não te via sair ou chegar
dos domingos de intermináveis partidas de futebol
dos dias que não trocamos nenhuma palavra
das vezes que estivemos de lados opostos
dos teus sacrifícios

da cara engraçada ao ver os netos
dos teus silêncios
dos dias que adormecias no sofá
de experimentar teus chinelos e tuas velhas chuteiras
de não devolver tuas bermudas
da quantidade de farinha que colocavas no prato
do hábito de chupar laranjas durante o jantar

substituirei as imagens derradeiras
pela impressão de a qualquer momento
entrarás trazendo um pacote de pães de mel.


Flávio Machado


Escrito por Flávio Machado às 02:00
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Atrasado para comemorar os 04 anos do Blog, coloco os primeiros poemas postados neste espaço em 17/01/2004.

 

 

 

Asas do Desejo

 

 

 

Em Berlim

ou em Passos

o olhar advinha

o amor tem asas

o amor tem urgência

de livrar da queda o anjo do desejo.

   

Sonhos de Kurosawa

 

não vou te mandar as orelhas do auto retrato

nem poemas embalados para presente

vou te presentear

com a chuva

com o arco íris

visões do fim do mundo

um campo de trigo em flor

ainda que não seja tempo de plantar trigo

 

 

Flávio Machado

 



Escrito por Flávio Machado às 15:44
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Álbum de família

 

Baseado em fotos de Flávio quando criança e de Igor, seu neto

 

Da página em preto e branco, de repente,

O menino salta da foto amarelada

E busca um companheiro de folguedos.

Encontra outro menino em cores vivas,

Em uma página mais recente.

 

Álvaro A. L. Domingues

 



Escrito por Flávio Machado às 08:40
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Foto de Flávio Machado - Jardim Botânico/RJ - 2005

 

simbiose

não há truques
na graça da garça
em movimento.

nos cabelos submersos
da manhã
caminha a garça

por ventura ou
por desgraça
neles embaraça os pés

de tal modo entrelaçadas
seguem sem vôos
garça e manhã
até que o sol se ponha
até que a noite se faça

e seja a manhã não-manhã
e seja inda garça a garça

 
Flávio Machado e Márcia Maia

Sua graça, a Garça

(para um possível livro infantil)

Álvaro

Em vôo majestoso, a garça percebe
Que nenhum cerca ou sebe
Barra-lhe agora o caminho
Nem lhe atrapalha o destino

Inah

De alma esgarçada
saiu em revoada,
cumprido a promessa
de coroar e ser coroada.

Álvaro

A garça ficou sem graça
Vestiu-se de renda delicada
Mas não viu a cerca farpada
Que a barra de seda esgarça

Flávio (a origem de tudo)

para um possível livro infantil


a palavra garça
parece pedir para ser associada
a palavra graça.


Flávio Machado



Escrito por Flávio Machado às 06:22
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Prosa Poética

O quarto era repleto de bichos de pelúcia. Achava estranho um quarto de puta com aqueles brinquedos infantis e sentia um enorme desconforto ao imaginar coelhos e ursos observando - os. Ficava ofegante: um cheiro forte e seco inundava o quarto. Pretendia que ela tivesse orgasmos, ainda que fingidos. Era felina nos movimentos. Um dia desapareceu. Deixou uma última frase sussurrada:

- Quando você goza explodem luzes brancas.

Flávio Machado

 

 

 

 

Objetos do Desejo

 

(Inspirado por Prosa Poética, de Flávio Machado)

 

 

 

Não sabia muito bem por que escolhera aquela mulher entre tantas que ofereciam seus serviços nas esquinas. Nunca freqüentara puteiros na juventude.  Fora fiel à esposa até o casamento acabar e tinha sido um homem solitário deste então.

 

Até aquele instante. No quarto, ainda vestido, observava a decoração. Bichos de pelúcia por todo canto. Alguns cobertos de pó. Ela se despira, rapidamente, e agora olhava pra ele, intrigada. Ele viu o rosto dela no espelho da penteadeira. Mais um bicho de pelúcia entre todos os outros.

 

Bichos de pelúcia. Objetos que fingimos ter vida para preencher nossas necessidades de afeto. Ela.

 

Naquela noite não fez nada. Pagou e foi embora. Voltou na noite seguinte e usou o tempo que tinha direito para limpar o pó dos bichinhos e reorganizá-los de acordo com um critério bem pessoal. Voltou outras noites. Em cada noite escolhia um e a convidava para brincar. Apenas. Ela, profissionalmente, aceitava o jogo. Até que um dia ele quebrou a máscara profissional dela. E ela riu. Espontaneamente. E chorou. Espontamenamente.

 

 

Álvaro A. L. Domingues 

 

 



Escrito por Flávio Machado às 09:09
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canções de despedida

 

1-

 

 

quando retornarem-me

as mãos

— as minhas mãos —

plantarei uma muda

de roseira

ou de jasmim

limparei o pó

dos móveis antigos

acenderei as velas

e farei com capricho

o jantar

 

só não te poderei

abraçar

amando-te o corpo

que me abrasa

pois partiste

antes mesmo que

com dedos emprestados

das estrelas

eu terminasse  de

escrever

este poema

 

                         

 

2-

 

 


o jantar estava posto
a mesa enfeitada
mas em silêncio
invadiu o quarto
com pressa
a pressa dos desesperados
arrumou uma poucas peças na mala
e partiu
nem ao menos lavou as mãos
não deixou bilhete
como fazem os suicidas
não deixou pistas
como fazem os assassinos
mas deixou um vazio
um poema por escrever
uma  canção de despedida
que não se canta
que não foi escrita
mas cortou com navalha os olhos
e o fio de vida que restava

 

 

 

3-

 

 

não deixam bilhetes
os suicidas
partem apenas
voam leves
pássaros tristes
antes que amanheça

antes que
novamente
se ponha a mesa

 

 

 

rcia Maia & Flávio Machado



Escrito por Flávio Machado às 12:40
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Flávio Machado - Praia das Conchas - Cabo Frio

 

Inverno


estou seco
mais do que o rio
e por mais que escave o leito
nenhum fio úmido aflora

restam seixos e detritos
da prolongada estiagem

tudo é tão áspero
e árido
que um simples riscar de fósforo
incendiaria toda a paisagem

Flávio Machado

 

Ad_verso

 

 

E há a flor que rubra rasga

a crosta do pardo no árido,

finca força contra os muros.

E brada, rija ao firmamento,

aquela firme frase de: vida!

  

 

Walter Ramos de Arruda

 

 

 

Flor do cerrado

 

brotando da palma doce aquosa

pelos espinhos

a flor

 

pelos cerrados

brota vermelha da grota

do amor

 

Gerusa Leal

 

 

 

bucólica

 

quando florescem os espinhos

a flor destoa

 

 

Márcia Maia

 

 

 

 



Escrito por Flávio Machado às 10:19
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Ana Cristina Cesar - Formigas na Varanda

 

prosaico
 
 
 
atravessaram a sala
atravessaram a varanda
atravessaram o poema
 
nada mais precisaria ser dito
o mistério da criação havia se materializado
na imagem das formigas em mutirão.
 
 
Flávio Machado
 
 

Detalhe

 

Um detalhe me impede de continuar a escrever. Formigas passeiam na minha folha de papel, ocupadas em levar migalhas de meu sanduíche, indiferentes às palavras que acabei de escrever. Pouco importa a elas se escrevo uma poesia, um conto, uma tese ou uma lista de supermercado. Apenas querem transpor um obstáculo. Aproveito a metáfora e resolvo anotar. Não agora. Somente quando elas deixarem o espaço em branco de minha página.

 

 

Álvaro A. L. Domingues

 

 

Das Egoilhas

 

 

Vão é o alheio esforço dos que movem quão formigas mútuas, seus músculos, carnes, ossos - na visão daqueles que não enxergam no outro um agente das próprias vidas.

 

 

Walter Ramos de Arruda

 

 

 

Formigas na varanda

 

Haiquases - variações sobre quase nada

 

tudo salpicado

não era só cerâmica

pintinhas que andavam

 

                                       formigas na varanda

                                       metade piso

                                       metade movimento

 

chegando na varanda

grão em movimento

cinco formigas

 

                                       fim de tarde na varanda

                                       piso em movimento

                                       formigas

 

na varanda

as formigas

fazem festa

                                       dança de formigas

                                       piso que se move

                                       alucina(chão)

 

formigas vivas

sobre o papel

nenhum poema

 

                                       formigas no piso da varanda

                                       entre as linhas do que leio

                                       arrastam o alimento

 

formigasno piso da varanda

criança com graveto na mão

debandada e confusão

 

                                       cinco formigas

                                       um só grão

                                       coopera(chão)

 

formigas quietas

no piso salpicado

esmagadas pelo sapato

 

Gerusa Leal

 

 

FORMIGAS

 

 

Cada doçura

tem suas formigas

corroendo a ternura

 

 

Jade Dantas

 

 

ciclo
 
 
labutam as formigas
 
a moça que as espia
                 prepara
a câmera
  
depois
(feita a fotografia)
             as esmaga 
sob os pés
 
as cigarras todavia
                 em paz
ciciam
 
 
 
 
Márcia Maia

 



Escrito por Flávio Machado às 10:07
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"O abraço dos livros”

Trata-se de uma noite de autógrafos coletiva
Dia: 08/12/2007 (sábado)
Horário: A partir das 18h
Local: Espaço Cultural São Pedro da Serra (Rua Rodrigues Alves 237, São Pedro da Serra – Nova Friburgo/RJ)
Atividades: Contação de histórias; interpretação e leitura de poemas e contos; e venda de livros
Coordenadores: Carla Pinho, Maria Lua e Sérgio Bernardo

Autores e obras:
           
Ø      Álvaro Ottoni – Livros A árvore que fugiu do quintal; Quando o coração recebe visita; O peixe que não sabia nadar e Quem mora aqui? Quem mora lá? (literatura infantil, todos pela Editora José Olympio) – O autor é carioca e mora atualmente em Nova Friburgo (RJ).
Ø      Flávio Machado – Livro Sala de Espera (poesia), lançado em 2003 – Poeta carioca, mora atualmente em Cabo Frio (RJ).
Ø      Maria Lua – Livro De Lua e de Estrelas (poesia), lançado em 2005 – A autora é fidelense e mora em Nova Friburgo (RJ).
Ø      Regina Lo Bianco – Livro de fotografias sobre Nova Friburgo, editado na Suíça e lançado em 2006. – A autora é friburguense.
Ø      Sérgio Bernardo – Livro Caverna dos signos (poesia e prosa), lançado em 2005 – Carioca, mora em Nova Friburgo (RJ).
Ø      Sílvio Rodrigues (Sílvio Poeta) – Livro Pátria que me pariu (poesia) – O autor também é compositor e mora em Nova Friburgo (RJ).

 



Escrito por Flávio Machado às 09:16
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Escrito por Flávio Machado às 09:15
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Semana da Pátria
 
 
 
para que lado
pende
o pendão da esperança ?
 
 
ou 
 
 
Semana da Pátria
 
 
para que lado
tende
o pendão da esperança ?
 
 
Flávio Machado   


Escrito por Flávio Machado às 13:35
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Igor
 
 
 
O que olha atento
O pequeno rebento?
 
É todo o divertimento!
 
Alvaro 29/07/2007
 
 


Escrito por Flávio Machado às 00:33
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foto de Flávio Machado

 

Inspirado por Octavio Paz
 
 
 
a palavra despe a poesia
na cara amarrotada de Mercedez 
nas mesas de madeira
surge inteira
contemplando o encontro de mares e horizontes
conjugando verbos irregulares
 
 
a palavra descobre a poesia
nas entrelinhas das imagens
condenadas a vida
esculpe formas inacabadas concedidas ao acaso
 
um gato atravessa a rua
distante de qualquer discussão estética.
 
 
 
Flávio Machado
 
 


Escrito por Flávio Machado às 00:03
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Foto de Flávio Machado

 

cartão de visita

a gente mal sai da rodoviária
e encontra um corpo estendido no chão
pernas emboladas como as de um boneco de Judas
o sangue grosso escorrendo para a sarjeta
os carros não se dão o trabalho de desviar
os olhos cismam em confirmar
mas nada ou ninguém se apresenta para ajudar
e o corpo fica exposto ao sabor da ausência
como um objeto sem importância
um mero defeito na paisagem
transformado em notícia rápida do noticiário
sem direito a obituário
mais um número na dura estatística
que soma mais mortes do que vidas.

Flávio Machado



Escrito por Flávio Machado às 12:52
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Mais Dois Poemas

 

Brincadeira da batata
 
Era uma batata,
batata, tatinha,
uma batatinha.
 
E tinha uma bata,
batata, uma tata,
uma tatatinha,
que a bata tinha.
 
Tal batata tinha uma bata.
 
Uma bata tinha, a Tata-tatinha.
 
Tinha.
 
Pois ficou sem bata,
a Tata, tadinha,
a batatatinha.
 
Tadinha ...
 
Fábio Peres da Silva
 
 
 
 
 
Ao vencedor


as batatas sim
mas também
a experiência visceral
de provar o resultado
do que às vezes levou
horas para se tramar

as batatas sim
mas também
a poesia pura
de navegar no sabor
do que não tem
pré-requisitos para a fruição

as batatas sim
mesmo dos recursos
da física da química alquimia
tendo que usar
para chegar ao fado

que se canta com a língua
ora na ponta ora no dorso
ora no fundo da garganta
e o corpo todo apreciando o show
as batatas sim

que é pura arte o que
enfim se aprecia
onde o que acolhe
pelo que envolve é envolvido
e se o ofício é
com arte praticado
bem como as flores
também agrada ao olfato

que assim como as flores
ao olhar encanta
deslizando sobre 
dourado azeite
pela lente de uma
taça de vinho entrevistas
às batatas
sim

recheadas com queijo
de noz moscada salpicadas
rodeadas pelo
verde frescor
de crocantes
folhas de alface
a tal dieta
sabe Deus quem inventou

e se tudo num prato
tem início
o que viaja até a boca
em reluzentes talheres
transbordando em
arrotos disfarçados
mãos à boca
olhares maliciosos

pode bem findar
(delícia das delícias)
após os pés se tocando
(sob a mesa)
em boa cama
(para a digestão)

as batatas sim
ao vencedor
ao bon vivant
enfim
 
Gerusa Leal
 


Escrito por Flávio Machado às 13:22
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Três poemas sobre a mesma imagem.

 

 

 

 

as batatas

batatinha quando nasce

esparrama pelo chão
esparrama pela relva
esparrama pela cama

comida em porções
disputada por jovens e velhos
por homens e mulheres

não tem preconceitos
o que vale é o amor
o prazer

mais dá do que recebe
mais alimenta do que é alimentada

seria uma gueixa ou uma cortesã aplicada?

não lhe cabe o espartilho das convenções
sente - se mais a vontade no biquíni de duas peças

batatinha quando nasce
esparrama pelo chão
esparrama pela relva
esparrama na canção.

Flávio Machado

vegetal blues

em terra de alface
tomate espinafre
chicória pepino
couve rabanete

repolho e acelga
sem sal sem azeite
vinagre ou pimenta
batata é aquilo

que há de mais sexy
quentinha macia
molhada por dentro

deixa água na boca
e o resto do gosto
na ponta dos dedos

Márcia Maia

Cosmopolita

Batata souté
Nome francês
De encher a boca

Batata quente
Que ninguém quer pegar
Mas todos querem comer

Batata Inglesa?
Fingida!
Só para estar
Com a nobreza

Batata palha
Senhora de si
Acompanhada de senhor russo
Vence a batalha!

Álvaro Domingues



Escrito por Flávio Machado às 12:33
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Poema férreo

 

 

 

A

chuva

é

como benção

                   ( chove

                   sobre os telhados baixos de sapê

                   sobre o telhado marrom do armazém Paratodos de Suruí )

 

chuva erosiva no plantio morro acima

chuva criadeira na roça

                   ( flor amarela do quiabo

                   rusticidade da mandioca

                   pólen dourado do milho )

 

chuva de fim de estação

lenta

sobre os trilhos da ferrovia

que faz explodir no peito um

 

 

Poema férreo.

Flávio Machado



Escrito por Flávio Machado às 09:40
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http://www.hotels-pousadas-brasilien.de/tropicana/Flussfahrt/barrasaojoao10.jpg

 

Barra de São João

O rio amanheceu diferente. As ondas crepitavam nos barcos ancorados à margem. Havia uma estranheza no ar. Na ponte nova a ausência do burbirinho da travessia. Abandonados os barcos dominavam a paisagem desolada da manhã, sem a frenética alegria dos meninos pulando dos trampolins da ponte velha. O rio com as águas invertidas, vertiam do mar para o continente. A Lua eclipsada mudou a órbita como um pião desgovernado fugindo das mãos do menino.

Flávio Machado 



Escrito por Flávio Machado às 00:20
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Declaração de Princípios III

Sou poeta
e finjo que não percebo
os pássaros
os aviões
os dirigíveis
os discos voadores

sou poeta
e finjo não conhecer as ruas da cidade
as estações do Metrô
as linhas de ônibus

sou poeta
e finjo não ler Fernando Pessoa
Drummond
ou João Cabral

sou poeta
e finjo
e morro de verdade
em cada poema
em angústia
nas noites de escuridão
nos desvios da vida
sou poeta
e finjo que isso não tem a menor importância
mas não convenço ninguém com este discurso
porque tudo que penso
tudo que toco
vira poema.

Flávio Machado



Escrito por Flávio Machado às 00:18
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Foto de Flávio Machado - Jardim de Dona Marilena
 
 
 
 
Quintaneando ou pelo dia internacional das mulheres
 
 
 
o poema começa errado
na pretensão de homenagear uma data
receita de mau poema
 
mas como quem toma um atalho errado
e não dá o braço a torcer
segue em direção ao labirinto
sem a devida noção do perigo
 
quase na metade do poema
percebe -se cada vez mais perdido
e sem auxílio de satélites de localização
 
redescobre a imagem da mãe 
primeira figura feminina
vem a sensação de depedência estabelecida
acompanhada do remorso por não ter confessado certos sentimentos
verbalizando
tornando linguagem o primitivo sentido de um amor não medido
 
talvez o poema não seja tão ruim quanto se anunciava
e servirá para registrar
a total respeito pela mulher
representada pela figura da mãe
e multiplicada na companheira
que é poesia.
 
Flávio Machado   


Escrito por Flávio Machado às 09:17
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